Vou ali rebolar um bocado. Acabei de comer três pratos de sopa de peixe, que mandei amanhar no supermercado (o peixe, não a sopa).
Vou ali rebolar um bocado. Acabei de comer três pratos de sopa de peixe, que mandei amanhar no supermercado (o peixe, não a sopa).
Eu não nasci para ser cabra.
Parece-me que ou se nasce com essa habilidade ou dificilmente se consegue ser cabra.
Posso já ter sido cabra por acidente, sem desejar ter sido (não vale a pena pedir desculpa). Mas desejar ser cabra e não o conseguir é uma história muito diferente.
Eu queria, por exemplo, ser capaz de tocar na campainha da minha vizinha de cima e dizer-lhe que ela devia ser internada, queria ser capaz de lhe pôr à porta os pelos e areia de gato que ela varre para a minha varanda, mas não sou capaz. Não faz parte de mim.
Isto de ser cabra devia ter um botão on/off. Agora preciso de ser, ligo o botão, agora não vale a pena, deixa o botão em paz. Isto, obviamente para quem não é inatamente cabra, como tanta gente é.
Enchemos a piscina insuflável. Amanhã haverá acentuada queda de temperatura, se não mesmo queda de neve.
Domingo à tarde subimos ao palco para a estreia de "A mansão Veit", uma peça brasileira, encenada pela nossa querida e talentosa encenadora Ana Perfeito.
A personagem que me calhou foi a Elisa, uma jornalista com graves problemas de memória e um bocadinho lenta de raciocínio. Imaginámo-la simplória e eu achei que ela tinha de ter buço e monocelha. Dei-lhe umas pernas tortas e uma postura curvada, de quem pede licença para falar.
A Ana pediu-me para fugir ao meu registo habitual de voz, que tende sempre para o agudo e esforcei-me por fazer uma voz grave que o M. dizia que era de totó.
Sinto muita falta dos ensaios, por isso esta Elisa saiu um bocado improvisada, tenho a impressão de que fui um bocado aquele adolescente a quem a voz ainda foge para o tom de menina, mas, para não variar, diverti-me tanto, tanto!
O ponto alto foi a parte da peça em que a Elisa desmaia (para aí pela terceira vez) e é acordada com um jarro de água. Na cabeça da Ana deveria ser coisa pouca, mas eu achei que poderia ser um pouco mais. O Filipe, com quem eu ia contracenar nessa cena, veio-me mostrar a quantidade de água e eu disse-lhe que podia pôr mais um bocadinho.
Uma coisa é durante os ensaios eu ter os olhos fechados e avisarem-me "ele já deitou a água, levanta-te" outra bem diferente é levar de facto com uma jarra cheia de água na cara, em cima do palco, durante a peça, com a casa cheia. Não sei como consegui controlar o ataque de riso que senti assim que a água me caiu em cima. As pessoas no público fizeram AAAAHHHHHH!!!!, a encenadora ficou a hiperventilar e eu consegui continuar a cena, dominando-me para não me atirar para o chão outra vez, às gargalhadas.
Aqui há uns dias, a Mr., amuada com o pai porque este se riu de atitudes da miúda várias vezes, veio entregar-lhe um bilhete em envelope fechado. Dizia mais ou menos que o pai era mau porque estava sempre a rir-se dela.
Achei giro vir em envelope fechado, e com um carimbo.
O pai mostrou-me a missiva e rimo-nos os dois.
É uma coisa frequente no caso da Mr. ela expressar os seus sentimentos via escrita. Volta e meia, recebemos bilhetes onde ela se queixa de que somos maus pelos mais diversos motivos.
Tenho andado a pensar nisto e cheguei à conclusão de que é uma coisa boa. Ela não tem medo de dizer o que sente e não tem medo da nossa reação. Deve ser por se sentir segura dos nossos sentimentos. Isto de um filho dizer que não gosta do pai ou da mãe sem medos tem muito que se lhe diga.
Os miúdos que não sentem confiança nos laços que os unem aos pais mais dificilmente exprimem o seu desagrado, com medo de consequências, creio eu.
Portanto, que a miúda continue sem medos na sua expressão de revolta e pode ser que daqui a uns anos não tenhamos de gastar muito dinheiro em psicólogos ou psiquiatras.
Façam-me passar o dia a dar aulas, mas não me façam passar por mais nenhuma vigilância, por favor!
Estar três horas sem poder fazer nada, absolutamente nada é do mais maçador que pode haver.
Mesmo assim, à socapa, fiz ginástica (pernas) e ainda consegui comer três bolachas. Às 11 da manhã a minha barriga roncava tanto que se ouvia na sala da frente.
Por mim, não havia equipas de futebol nem campeonatos de futebol e estou contente pela saída "precoce" da selação portuguesa do campeonato da Europa.
Acho que é absurda a quantidade de dinheiro e energia que se gastam nestas merdas.
Por mim, havia seleção de jogadores "voluntários" e os gajos não ganhavam nada por irem "representar" o país. Queria ver quantos jogadores punham lá os pés.
Agora venham cá insultar-me.
Escreve-se uma vez a palavra e somos "perseguidos" por ela.
Tenho a certeza de que andamos a exagerar na quantidade de big bangs que vemos quando a Mr. agora chama por nós assim:
- "mãe... mãe... mãe..."
- "pai... pai... pai..."
Mummy meal é aquilo que arranjamos para evitar uma ida ao macdonales (não é erro, não, é a forma como a Gr. diz).
Queres ir comer um happy meal? Sim?? Não... sim?
Por causa da comida ou por causa do brinquedo?
Ah! Por causa do brinquedo.
Então, e que tal se em vez de um happy meal for um mummy meal? com brinquedo e tudo?
Sim? queres? Boa!
Encontro-me então, a preparar-me psicologicamente para fazer um hamburguer que chegue aos pés dos do macdonales (piece of cake) e já tenho um brinquedo e tudo, arrumadinho numa caixa de papel que fizemos, a ver um tutorial do youtube.
Who's the boss? who's the boss?
Agora que se avizinha o aniversário da Mr. sei que alguém anda a congeminar (titi alert) o que pode oferecer à miúda.
Assim, venho por este meio comunicar que:
não são necessários porta-lápis, lápis de cor, afias, réguas e cenas afins (por favor, mais não)
Na brincadeira, pus-me aos ombros da Mr. ,segundos depois de me pedir colo.
Disse que eu era gorda entre aspas.
Ainda estou a matutar nisso.
Se já tomaste o pequeno-almoço, vai-te vestir deve ser o equivalente de "se já tomaste o pequeno-almoço, vai enfiar-te mais um bocadinho na cama."
Vai lavar a cara equivale a "vai desarrumar os livros todos que depois a mãe arruma."
Caraças, despacha-te que estamos a ficar atrasados soa a "podes andar a passear pela casa em cuecas."
Ainda não te calçaste? vai já calçar-te é ouvido como "vai gastar o sabonete todo a lavar as mãos e molha a casa de banho toda."
Por favor, acaba de te arranjar equivale a "deita-te no chão à procura do ganchinho mais pequenino das pinipons perdido algures entre o quarto e a sala."
O dentes? estão lavados? vai lavar os dentes é o mesmo que "o quarto está em pantanas? vai pô-lo em pantanas!"
Ah! quem me dera ter um tradutor de filhês!
Ele vai-me possuindo
Não me possuindo
Num canto qualquer
É como as águas fluindo
Fluindo até ao fim
É bem assim que ele me quer
Meu namorado
Meu namorado
Minha morada
É onde tu quiseres morar
Ele vai-me iluminando
Não iluminando
Um atalho sequer
Sei que ele vai-me guiando
Guiando de mansinho
Pelo caminho que eu quiser
Meu namorado
Meu namorado
Minha morada
É onde tu quiseres morar
Vejo meu bem com seus olhos
E é com meus olhos
Que o meu bem me vê
Meu namorado
Meu namorado
Minha morada
É onde tu quiseres morar
(Edu Lobo, Chico Buarque)
Os horários que estavam no frigorifico já foram à vida.
Lembretes vários que ajudavam a organizar os dias também.
Andamos naquela lenta adaptação ao já não ter aulas para dar, mas ainda ter coisas para fazer.
Há um puto que vai fazer exame de português para preparar, há reuniões de tudo e mais alguma coisa, vigilâncias de exames, papeladas para entregar, mas já não temos de ir todos os dias à escola.
A Mr. cá anda, espalhando-se pela casa, pegando em livros diferentes a cada meia hora, ligando e desligando a televisão, levando brinquedos de uns cantos para outros... é tão pequenina, a minha mais velha!
A Gr. ainda sem perceber muito bem porque é que ela não fica em casa e a irmã fica, vai indo para a escola todos os dias, em countdown para a semana da praia. Creio que depois disso, não será tão fácil levá-la. Quando chegar a altura vê-se.
Ensino-a a jogar à pesca, tembém conhecida por peixinho.
Jogamos uma vez e ela perde. É distraída, mostra-me as cartas dela, as que tem na mão e as que vai pescando.
Perde e faz birra. "Jogamos outro, é a desforra, agora vais estar mais atenta e ganhas, anda, mais um."
"Estou sempre a perder, perco os jogos sempre, sempre. Não quero jogar mais."
Aborrecida com a reação e lamentando não ter feito de propósito para a deixar ganhar, sugiro o "perde, ganhas".
"Não, porque aí ia ganhar e perdia na mesma!" E continua a birra, o pranto.
Não fui.
Mas podia inventar que sim, que fui.
Entretanto, nas Caldas da Rainha, também andei numa espécie de feira do livro (e de outras coisas, mas isso agora não interessa nada).
Hoje chove.
No ano passado, houve festa do chá (andámos a beber chá de cidreira, limão, frutos vermelhos e lúcia-lima durante uma semana).
Este ano, o pai inventou uma festa de final de ano, com "piscina, danças (deixarei especialmente este departamento nas mãos dele, que dança muito bem) e muitas diversões".
Será no dia 2 de julho. Eu tenho a impressão de que nesse dia vou ter uma urgência qualquer que me vai tirar de casa das 15 às 19. Que aborrecido.
Na terça-feira, após a última aula do ano, dou por mim na sala de professores com a lágrima ao canto do olho. Eu sabia que após ter deixado os miúdos sairem mais cedo devia ter agarrado em mim e ter ido para o carro e vindo embora, mas achei que devia ficar até à hora de saída.
O que é certo é que assim que alguém me perguntou se estava tudo bem comigo, as lágrimas saltaram quatro a quatro. Grande merda! no meio da sala de professores.
Isto só me aconteceu no ano passado, depois de dois anos na mesma escola, com as mesmas turmas e consegui aguentar até uma miúda me vir abraçar, já depois de me ter despedido de todos "até sempre, portem-se bem e sejam felizes", aquela miúda encontrou-me no portão da escola, a catarina, e veio abraçar-me.
Deve ser da idade, da crescente precariedade... caraças, era suposto estar a ficar mais segura, mas é o oposto, quanto mais tempo passa, mais incógnita é esta coisa de ser professora, de não saber o que será que acontece no ano vindouro. É uma merda!
- Mr., é muito difícil estar na mesma divisão contigo quando estás a comer. É horrível ouvir-te mastigar.
- Pois vais ter de me ouvir mastigar muitas mais vezes, para aí até aos 18.
- Até aos 18? porquê? sais de casa aos 18?
- Hmmm, talvez aos 20.
- Sim?
- Sim, mas não tenho a certeza. Não sou eu que faço o futuro.
Era uma vez um rabanete que estava bem metido lá na terra. O lavrador cuidava muito bem dele. Só lhe via a rama, mas dava para perceber que ia sair dali um vegetal bem gordo e apetitoso.
O rabanete vivia muito feliz, absorvendo da terra e da água tudo aquilo de que precisava para crescer.
Um dia, estava ele a cantarolar, contente da vida, quando chamou a atenção de uma minhoca esfomeada que andava ali perto. A minhoca ranhoca andava desejosa de espetar a boca num belo rabanete e aquele parecia espetacular. Foi-se aproximando, já a salivar só de imaginar-se a comer o rabanete.
O rabanete não tardou a perceber que ali vinha uma minhoca. Olhou para ela e gritou: - "aaaaahhhhhh sacana de minhoca! tu pira-te daqui, que levas um enxerto de porrada que nem sabes de que terra és! ahahahahiaiaiaii!"
A minhoca ranhoca deu uma grande gargalhada - "ahahaha hahahahahhahahah!" e continuou o seu caminho em direção ao rabanete.
Este, que era um rabanete pacífico, nao gostava de conflitos, resolveu mandar mais um berro, para ver se assustava a minhoca - "Aaaaahhhhhh sacana de minhoca! tu pira-te!"
Mas a minhoca estava mesmo esfomeada e chegou bem pertinho do rabanete. O rabanete esticou uma das suas raizes e, prás, trás, espetou-a bem na fuça da minhoca que, desnorteada com o pontapé, nem percebeu o que lhe aconteceu.
Mais uma vez a minhoca tentou abocanhar o rabanate, mais outro pontapé levou. Se ela tivesse dentes tinha-os perdido todos ali. O que é certo é que pôs-se a andar e nunca mais tentou comer rabanetes.
Tenho tanto medo de 2016/17...
Desejo o fim deste ano, esta semana nunca mais acaba, mas...
O problema da idade do ouro é que só damos conta dela quando olhamos para trás. “Olha, aqueles foram, afinal, os meus melhores anos.”
Ter consciência disso agora deve ser bom. Perceber, por exemplo, que elas precisarem de mim na hora de dormir é bom. Afinal, estes são, muitas vezes, os únicos momentos do dia em que as tenho para mim, em que nos mimamos. Há que aproveitar o facto de a Mr. ainda se rir das minhas piadas ou das minhas histórias para dormir, muito parvas (de rabanetes a crescer na terra, que dão porrada velha a minhocas cheias de fome) e que a Gr. ainda se aninhe nas minhas pernas e nos meus braços e me chame “mamã”, quase em exclusivo nestes momentos.
É, esta é a nossa idade do ouro.
Vou para a cozinha às 19 e saio de lá às 20.30 com um prato todo XPTO, que sujou metade das panelas que possuo e implicou malabarismos circenses. As miúdas comem um bocadinho e "nhec nhec, acho que não gosto" ou "estou cheia, não quero mais".
Vou para a cozinha quando elas dizem que têm fome, em dez minutos cozo esparguete e estrelo uns ovos. As miúdas comem tudo e ainda lambem os pratos. Acho que nem preciso de os lavar.
Ah, vida!
Com um livro de anatomia amplamente ilustrado aberto no chão da sala, na parte da reprodução, a mais velha dá uma lição à mais nova.
- Para eu nascer houve um só espermatozóide que entrou na mãe, mas só um, só um, o MEU espermatozóide. Foi o MEU.
-Então, para eu nascer também houve um espermatozóide MEU que entrou na mãe, só meu. - responde a mais nova.
Eu e o pai, na cozinha, desmanchamo-nos a rir, baixinho, baixinho, para não interromper a "aula".
O que me devia chatear é o meu espanto perante as reações das pessoas e não as reações propriamente ditas.
As pessoas são, na generalidade, bichos complicados. Porque é que ainda me espanto com o facto?
As minhas filhas são cada vez menos minhas.
É com orgulho e medo que assisto a esse "distanciamento" que o crescimento carrega.
Fico-me por aqui, no que toca a este assunto, por hoje. (um bocado cansada de ser um lugar comum, embora a minha vida seja feita deles)
Sonhei que fugíamos, não sei quem éramos. Mas fugíamos de um golpe, de algo que tinha mudado radicalmente a nossa forma de viver. Chegámos ...