a mais nova é um poço de teimosia que roça a obsessão
os obstáculos, se existem, contornam-se, partem-se, sei lá... e ela lá tem levado a sua água ao moinho
é uma canseira para nós, mas não deixa de ser uma lição de vida para mim
a mais nova é um poço de teimosia que roça a obsessão
os obstáculos, se existem, contornam-se, partem-se, sei lá... e ela lá tem levado a sua água ao moinho
é uma canseira para nós, mas não deixa de ser uma lição de vida para mim
ela tem um plano na cabeça, que não é fazível
elaborar um plano alternativo parece-lhe desistir do primeiro
e eu não sei gerir isto.
Afinal, ter filhos não significa apenas andar com o coração fora do peito. Parece que os pulmões também entram na equação. Se não, como justificar que a ida da mais nova a Londres me tenha deixado com dificuldades em respirar?
Só senti os pulmões a funcionar corretamente quando recebi mensagem com a informação de que o voo tinha aterrado e que ela tinha gostado muito.
ela fez dezasseis anos
foi o fim de semana da casa cheia, desde a tarde de sexta até à tardinha de domingo
a máquina de lavar louça sempre a bombar
fizemos kms a levar e a buscar, entre leiria, batalha e marinha grande
a minha filha tem amigos
amigos que gostam dela na sua quirkiness
amigos quirk, mas amigos, que esta semana, por ela ter o braço ao peito, de uma luxação no cotovelo, lhe carregaram a mochila, lhe partiram comida...
foi um fim de semana cheio, mas estou contente. por ela e por nós, porque se há coisa má é sentir que os nossos filhos não são aceites pelos seus pares. contente porque ela tem amigos.
a mais nova começou a usar óculos ontem, dia 1 de novembro de 2022
a oftalmologista ficou espantada
eu fiquei espantada
tem mais graduação que eu
os óculos ficam-lhe bem
Estamos em casa, em modo E@D (porque daqui a uns anos não me vou lembrar: dois colegas testaram positivo para Covid e a turma veio toda para casa no mesmo dia). A mesa da sala é um mundo onde se misturam as cenas dela e as minhas, às quais se vieram juntar as prendas para embrulhar.
O calendário segue, com os percalços do costume.
O que já fizemos, desde a última atualização? nem sei.... um jantar à luz das velas e pouco mais. É a vida a acontecer.
Hoje é dia de comer o nosso chocolate preferido, amanhã de jogar uno.
Siga.
Só quer cenas kawaii, só aceita cenas kawaii, seja lá o que essa m$%3@ é.
Vai dar comigo em doida!
Nas duas semanas anteriores à apresentação da coreografia a miúda andava nervosa. A frase que mais a ouvíamos dizer era: "vou fazer bosta." Assim mesmo, com estas palavras. Vais nada, dizíamos nós, para a tranquilizar. A única apresentação pública em que participou foi na era pré-covid, andou nervosa e no dia não queria ir, cheia de medo e chorosa, acabou por fazer a rotina de forma algo atabalhoada, o que a deixou frustrada.
Não queríamos que voltasse a acontecer.
No dia, ontem (12 de junho de 2021) correu tudo bem, tirando uma coisa ou outra. Era um esquema complicado que incluía um escadote no cimo do qual ela fazia uma série de figuras que me deixaram os cabelos em pé. E a se miúda cai de lá de cima? Não caiu, não foi perfeito, mas para quem começou há pouco mais de um ano e viu os treinos interrompidos pela merda da pandemia até está muito bem.
Foi para lá com o clube bem cedinho, regressou à tarde, muito contente. Os nervos não a atrapalharam. Está uma crescida, esta rapariga.
Estranhos tempos estes.
A miúda mais pequena a verbalizar a estranheza deste "novo normal".
Tomar decisões é coisa para lhe pesar, muito, toneladas. Peso esse que não sabe como aliviar. As vítimas são, regra geral, a mãe, a irmã e uma grande almofada que faz de cabeceira na cama da mãe.
Pega na dita almofada e vai de a sovar, de a atirar ao chão, de se atirar para cima dela, qual lutador de wrestling.
Toda suada, mas ainda lixada da vida, porque não sabe se escolhe A ou se escolhe B, esfrega o corpo no chão, dá abraços que magoam e a deixam sem respirar à mãe e a seguir vai implicar com a irmã.
É difícil escolher, estando sempre a pensar nas perdas que a decisão acarreta em vez de pensar nas vantagens e nos ganhos, mas a miúda recusa-se a ver as coisas deste modo.
a mais miúda entrega-se às artes, é mesmo assim que ela diz, vou para as minhas artes.
das artes dela saem "coisas", obras variadas, artefactos cuja inutilidade eu atesto, mas que ela me impede de deitar fora: podem ser almofadinhas de apertar, pinturas estranhas (há duas semanas desenhou e pintou um olho que à vista armada eu juraria que foi feito por um artista a sério), bonecas e bonecos que recorta e para os quais faz um enxoval completo, que também recorta, pois claro, sapatinhos, cintinhos, vestidinhos, toalhinhas de praia, protetorzinhos solares... não, não posso deitar nada fora.
das artes dela também saem obras literárias. Algumas pessoas dirão que quem sai aos seus não é de genebra. Escreveu uma prosa poética que me deixou babadíssima. Não, não posso partilhar, ou corro o risco de ser precocemente colocada num lar, onde me sujeito a apanhar covid.
para depois ouvir cenas.
- Estás a pentear-te mal.
- Não, não estou.
- Não sei para que é que te penteias. Ficas na mesma descabelada.
Não é giro ela usar a palavra "descabelada"?
Gr. doente em casa. Por volta das seis da tarde pergunto-lhe se quer comer alguma coisa. Anda sem apetite, tadita.
Responde-me que quer canja!
Canja?! está bem, eu faço canja. É preciso aproveitar a onda de apetite, ainda que de canja às seis da tarde.
Entretanto, a irmã chega e prepara o seu lanche.
A gr. entretida a comer a canja que ficou pronta, não lhe liga puto. Mas, de repente: mãe, porque é que a mr. está a comer torradas? é este o jantar dela?
Não, este é o lanche dela. É hora de lanchar, não de jantar!
Então porque é que me deste canja?
A gr. é aquela miúda que, perante a dificuldade em decidir se bebe chá de cidreira, de camomila ou de lúcia-lima, pega em três chávenas e faz três chás diferentes, bebendo deles todos.
Não me deixa falar dela, mas preciso de deixar registados os pequenos nadas que fazem os nossos dias, porque a memória é uma treta.
Nos dias que correm, anda na ginástica acrobática, passa o tempo todo a fazer rodas, com as duas mãos e só com uma, pinos, saltos... imaginem o que é estar sentada no sofá e ter uma miúda assim, aos pinotes de um lado para o outro, até enquanto vê televisão, roda para aqui, roda para ali, se ao jantar precisa de ir buscar o sal, sai da mesa e pino já aqui, mais outro ali, abre o armário, pirueta, saca do sal, mais uma roda e senta-se, está a fazer os trabalhos de casa, levanta-se e piiiinooooo!
e é isto, todo o tempo em que está em casa,
cambalhotas na cama,
tentativas de salto mortal,
de rodas sem mão... o tempo todo.
É muito divertido, mais ou menos.
às vezes mais para o menos. não sei como ainda não levei uma patada ou ou coiçe, porque esquece-se sempre de ver se não vem gente atrás dela e lá vai disto: roda para a frente, roda para trás!
Desafiam-me para ir ver o Zambujo. Não posso, o pai cá de casa vai ao baile de gala da escola e não tenho quem fique com as miúdas - respondo.
A mais nova ouve e vem muito admirada - baile de gala? o que é isso?
Respondo-lhe que é um baile chique.
"Um baile chique? O pai vai a um baile chique? Mãe, o pai é chique?? O pai come cebola!"
Tumbas! Deita-se assim abaixo todo o vasto grupo de apreciadores de cebola.
A guiomar começou a ter consultas de psicologia com a dra susana lalanda no caiped, em leiria.
A primeira sessão que serviu para falarmos sobre aquilo que nos preocupa. Parece estar tudo ligado à ansiedade. Hoje enviou-nos um mail com jogos para fazermos com ela. Honestamente não sei se vai funcionar porque implicam tempo e parece coisa rara nos dias que correm. O pai está sempre ocupado com alguma coisa, eu estou sempre cansada e ansiosa também com merdas que não interessam a ninguém e honestamente não acredito na psicologia. Tenho a impressão de que é mexer em merda que já está seca há muito tempo, mas pode ser que no caso de crianças funcione, afinal a merda delas ainda não está tão seca como a dos adultos.
Este fim de semana estiveram cá a cati e a d. elsa. Eu não consigo passar por cima da cena que se passou em relação à tentativa da sogra de pôr a guiomar na catequese à minha revelia e a cena da cati estar pela milionésia vez com um tipo que lhe faz a vida negra (houve pelo menos duas discussões valentes ao telemóvel só estes dois dias) também me incomoda. A suposta calma do irmão e da mãe (d.elsa é um bocado creepy). Se calhar é isso que uma mãe deve fazer: ver a filha a fazer merda e deixar acontecer sem dizer nada.
foi o que ela me disse, depois de me fazer confirmar que eu estava triste pela ti ci.
"É a vida e a morte, mãe".
No dia dos meus anos fazes a comida que eu te pedir?
Não sei. Estás a pensar em quê?
Pizza ou bolonhesa ou lasanha vegetariana ou a sério ou hamburger no pão.
Sim, posso fazer. Mas ainda falta tanto tempo. Não queiras que o tempo ande muito depressa.
Porquê?
Porque depois ficamos velhas, ou melhor, eu fico velha mais depressa.
Pois é... eu não quero que tu fiques velhinha!
Eu também não.
Eu não quero ficar adulta!
...
Não quero estar sempre a discutir com os meus pais...
É isso que tu achas que acontece? É isso que tu vês?
É.... Mas deixa lá, mãe. Eu sei que é a tua vida, é assim... não te preocupes.
Não sei se ria, se chore, se me sinta embaraçada, se me debruço sobre a questão ou assobio para o ar. Se calhar, estava aqui uma meta para o futuro, ou não.
Parar de escrever tudo sob a forma de disjuntivas também...
As avaliações deixam a minha miúda mais nova descompensada. Toda ela é um contínuo chamar pela mãe, que nos dias que correm é qualquer coisa como "amesimumsi" ou algo estranho assim.
Desde os primeiros minutos em que acorda até à hora de deitar. Se esse som estranho que ela agora usa para me chamar fosse um bem perecível, há muito, muito que já tinha desaparecido da face da terra, só à conta das vezes que ela o usa.
1/4 hoje 1/4 depois e depois assim entra o antidepressivo no meu sangue o comprimido é tão pequeno que o ato de o reduzir a quartos é no mí...