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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

joana

 apetece-me escrever sobre a joana

a gata que escolheu a nossa casa

a gata senhora do seu nariz que sabia que aqui a porta estava sempre aberta, fosse para entrar, fosse para sair

era nossa e dos vizinhos, mas a "cama" que a adormecia era aqui, na nossa casa

a joana foi atacada por um cão e ficou às portas da morte

e morreu (não logo, não no dia em que a levámos envolta numa manta ao hospital veterinário)

vi-lhe as patinhas, embrulhadas no penso rosa, com corações, que lhe costumavam pôr quando a levávamos aos curativos e arrependo-me

porque sonho quase todos os dias com essas patinhas embrulhadas em adesivo rosa




quinta-feira, 10 de abril de 2025

seis anos

A fazer seis anos que o tio morreu

parece que foi há uma eternidade e há tão pouco tempo

parece que a pandemia alterou o conceito de tempo

às vezes, ainda me custa a acreditar

 

quarta-feira, 10 de julho de 2024

lembrar os mortos

Sonhamos com os mortos para matarmos saudades. Será?


Esta semana sonhei com o manel, na semana passada sonhei com o meu tio, sonho com alguma frequência com ele. Aqui há uns meses sonhei com a minha tia. Faz amanhã um ano que partiu.


Aqui em casa tenho pedacinhos dela, que me fazem sorrir e me deixam a casa mais colorida. Curiosamente, são coisas que ela tinha guardadas. Gostava de janelas fechadas e de divisões na penumbra, a minha tia. Escolho pensar que queria manter vivas as cores, não fossem elas ser comidas pelo sol. 


 


 

sexta-feira, 14 de julho de 2023

disseram-te adeus

à tarde, pouco antes de o teu caixão descer à terra, dois senhores estavam sentados nas cadeiras junto à porta. Tinham um ar solene, ali sentados, olhando em frente, na tua direção.


Perguntei quem eram e disseram-me que eram os dois senhores do café onde ias pela manhã tomar a tua bica.


Quando sairam, a mão de um deles levantou-se, num aceno breve, num adeus discreto, e eu achei aquilo bonito. 


A minha tia do coração deixou-nos no dia 11 deste mês. 

quarta-feira, 20 de abril de 2022

para não esquecer (fugindo ao título para memória futura)

Ao décimo nono dia do mês de abril de 2022, dois anos e picos depois do início da pandemia, os adultos desta casa testaram positivo, com sintomas, ao Covid19.


Nessa noite, a nossa gata deu sinais de morte e deixou-nos de madrugada. 


A minha Pata. A nossa Pata. 


 


 


 

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

À Isabel

O Jardim da Isabel foi a segunda casa das minhas filhas nos seus primeiros anos de vida.


As minhas filhas são o que são  em parte porque andaram no Jardim da Isabel. 


Olhando para trás, eu tenho quase a certeza de ter agradecido à Isabel o que fez pelas minhas miúdas. Se não o fiz, agora é  tarde.


A Isabel morreu. 

domingo, 14 de março de 2021

Pintovski

Sonho muitas vezes contigo.


Entraste lá em casa como o Pinto. Para mim, criança com cinco anitos, era um nome estranho. Eras o pintovski, aquele do bigode enroladinho. Aparecias ao serão, bebias um copo com outros que também andavam por lá, como o Baptista e sei que havia mais, mas não me lembro dos nomes.


Passaste a fazer parte das festas de anos, daquelas à moda antiga, sem temas e sem decoração. Só com pessoas, comida e muita conversa para os adultos e brincadeira para as crianças. Lembro-me de uma passagem de ano que foi a loucura. Às tantas da madrugada fomos todos levar-te a casa pela vila acima. Querias porque querias meter-te no teu carro azul, cheio de pinta, acho que era um Datsun, mas não tenho a certeza, querias por tudo ir de carro. Mas os adultos estavam todos bem bebidos, não que eu tivesse consciência disso, e obrigaram-te a ir a pé. Fomos todos.


Depois, tu, que ias ficar para tio, conheceste a minha tia, aquela que também ia ficar para tia, a minha tia preferida, e passaste a tio Pinto. Foi muito fácil essa passagem. 


Sonho contigo muitas vezes. Com boina preta, com bigode, sem bigode e de chapéu de palha.


Não sabia que me ia custar tanto pensar que já não existes. 

domingo, 8 de novembro de 2020

update

Cá estamos, naquela correria típica dos dias que passam e não deixam marcas exceto as rugas no corpo e os cabelos brancos.


Ainda nenhum de nós apanhou covid, mas faz dois meses que morreu o sogro.


O período está a mais de meio e as miúdas já terminaram a primeira ronda de testes.


Neste momento, ambas são frequentadoras mais ou menos assíduas de clínicas de psicologia (achávamos nós que estávamos a fazer um trabalho minimamente decente e vai-se a ver são crianças marafadas).


A mr é proprietária, muito contra nossa vontade, de um telemóvel (ou mantinha-se a nerd da turma, excluída da vida social que agora se faz quase exclusivamente online), a gr. herdou o dumbphone da irmã e já nos pode telefonar se precisar de alguma coisa.


O pai cá de casa está em vias de perda substancial de peso e está mais bonito.


O paterfamilias vai fazer anos, mas não podemos ir vê-lo porque estamos confinados. 


Não pude ir ver o Ivo Canelas porque estamos confinados.


E confinados para tudo e ao mesmo tempo para nada vamos ficar. 


 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Deve ser assim que matamos saudades de quem já morreu

Numa das primeiras noites lá em baixo sonhei com o meu tio. Estava doente, mas vivo. Tão vivo que consegui abraçá-lo. Trazia o tronco nu, como se andasse ele na praia e usava o seu chapéu de palha. 


 

terça-feira, 23 de abril de 2019

estágios

O tio pinto morreu na semana anterior à Páscoa. Foi triste. Foi um estágio para mim, a primeira a chegar à minha tia. De repente, dou por mim a dar opiniões na escolha de caixões e de pacotes de funerais, a procurar roupas e fotografias, a decidir coisas que a tia estava incapaz de decidir. Foi triste e surreal. Foi um estágio. 


 


 


 

morte do tio Pinto

Na sexta, dia 12 deste mês, dei por mim a escolher caixões e "pacotes" de funerais. A escolher roupa para vestir "o corpo" e meias e sapatos. Fiquei a saber que os cintos "não devem ir", que cada terra tem cerimoniais e protocolos há muito estabelecidos, aos quais não se foge.


No sábado, dia 13, enterrámos o tio Pinto.


"Foi melhor assim." diziam as pessoas à minha tia e à minha prima, ainda de ressaca da viagem de avião e de carro até casa dos pais. 


Foi um estágio para mim. Foi surreal. 


 

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

é a vida e é a morte

foi o que ela me disse, depois de me fazer confirmar que eu estava triste pela ti ci.


"É a vida e a morte, mãe". 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

que adianta?

tanto tempo sem pôr aqui as minhas letras e regresso para falar de morte.


nas férias de natal, tivemos a notícia da morte de uma pessoa que andou connosco na escola, um tipo da minha idade, um médico "hotshot", daqueles que na secundária tirava 20 a tudo (exceto educação física) e que já sabia o que ia ser quando fosse grande aos 4 ou 5 anos.


Morreu. Num segundo estava vivo, no segundo seguinte estava caído no chão, morto. A este tipo, da minha idade, já tinha morrido um irmão, atropelado,quando criança. A mãe destes dois filhos perdeu, portanto, dois filhos.


A gente evita pensar nisso, bola para a frente, que adianta ficar a pensar na arbitrariedade disto tudo? Nada! É andar, é andar, que atrás vêm outros.


Ontem, soubemos via telefone, da morte de outro tipo da nossa idade. É andar, é andar, que adianta ficar a pensar que não vale a pena nada?


Mas pôrra! Pôrra! Pôrra! 


 


 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Não tu

Achei que ias mesmo viver para sempre. Leonard Cohen... Não tu... Ainda acalentava a esperança de te ver ao vivo. Não tu...

terça-feira, 23 de agosto de 2016

à sua, sr. Rui!

Com o sr. Rui aprendi a dançar samba. Foi ele que me deixou provar whiskey pela primeira vez, um golinho pequenino. Mudei muitas fraldas aos filhos do sr. Rui.


O sr. Rui ficou doente mais ou menos quando eu fiquei grávida da Mr., há mais de nove anos. Enfrentou uma série de cancros, todos eles seguidos e hoje morreu. 


 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

para registo

Foi o primeiro animal que entrou lá em casa. Era a gatinha ou a xaninha. Foi o Marco quem ma deu, pequenina, bufona, mázinha mas muito miminhas.


Morreu esta semana, nos meus pais.


 


 

domingo, 25 de outubro de 2015

sem título

Há dias intermináveis e depois há fins de semana que não acabam e deviam acabar. 


E depois, concorremos, por engano, para uma cova da moura dessas que há pelo país e é lá que somos colocadas, numa cova da moura, num horário de oito horas....


E quando o fim de semana terminar, lá vamos nós ver como podemos resolver o problema sem muitos danos colaterais.


Como diria o sr. Moreira (avô materno do M.), que fomos ontem a enterrar: "é bida." À sua. 


 

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

não é bonito

Não se morre de amor nem se morre quando alguém nos morre.


Mas algo dentro de nós deve morrer e ficar sem uma parte de nós é coisa para moer muito.


Nunca mais se vê aquele dia da mesma forma, nunca mais se vive um aniversário, um natal, uma páscoa da mesma forma...


A mãe da I. morreu esta noite.


A I. não volta a ser a mesma porque lhe morreu uma parte ao mesmo tempo que lhe morreu a mãe.


 


 

um quarto

 1/4 hoje 1/4 depois e depois assim entra o antidepressivo no meu sangue o comprimido é tão pequeno que o ato de o reduzir a quartos é no mí...