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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Intermezzo

 Acabei ontem o Intermezzo da Sally Rooney. Foi um parto longo.

Não é de leitura fluída, como os anteriores, especialmente se estivermos a ler a versão original. Admiro e, ao mesmo tempo, irritam-me as narrativas no presente do indicativo. É um daqueles romances onde a maior parte da ação é o que se passa na cabeça das personagens, dois irmãos muito diferentes, que vivem o processo de luto após a morte do pai. 

Demorei muito a engrenar, pegava no livro e só conseguia ler umas dez ou doze páginas de cada vez. Primeiro porque a escrita é difícil e depurada (a tradução deve ter sido complicada de fazer!), segundo porque a alternância entre duas vozes me deixava, no início, insegura - mas quem é este agora? o irmão mais velho ou o mais novo? Onde estou agora, e quanto tempo passou?

Depois, fui percebendo que a "voz" do irmão mais velho era completamente diferente da "voz" do mais novo, habituei-me ao presente do indicativo e acabei por não conseguir parar até chegar ao fim. 

Gostei especialmente da forma os irmãos  vão processando tudo o que acontece - e fazem-no de forma completamente distinta - para chegarem a conclusões mais ou menos idênticas. 



segunda-feira, 20 de abril de 2026

quantos?

 quantos farias hoje? uns bons oitenta, a comparar-te com a idade do meu pai. e digo bons oitenta, não tendo a certeza da idade do meu próprio pai (já escrevi sobre isto, a minha memória deixou de guardar a idade dos meus pais).

quantos farias hoje, pintoveski? a tua C. chega aos 40. E tu? quantos farias hoje?

ia escrever "às vezes", mas não é só às vezes, é quase todos os dias

 à tarde, treino.

Escolho um treino, estendo o tapete, visto um par de calças de fato de treino e aplico-me, uns 30, 40 minutos, cerca de quatro, cinco vezes por semana.

Pois não há dia em que não diga a mim própria "hoje não treino, estou cansada, não me apetece", uma horita antes, às vezes mais cedo. Na hora de sempre, entre as 18 e as 19, lá estou eu a estender o tapete.

É isto quase sempre. Daria um estudo. Dar a mim própria a possibilidade legítima de não fazer nada, para acabar a fazer, não sem antes ter dito um debate interior. Quase sempre isto. Cansa ser eu. 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

rosáceas há muitas

 A tipa que habita a minha cara não gosta de exercício físico.

É uma rosácea papulocoiso preguiçosa, que se enerva com o exercício fisíco. Fica zangada e começa a picar-me, deixa-me outra vez de cara inflamada.

Deito-me toda empastada, acordo com a cara relativamente ok, ao longo do dia, se não estiver muito calor, a cara mantém-se decente, mas após o treino estou toda ruborizada e as borbulhas renascem. 

A medicação está a fazer efeito, sim, mas tenho a ligeira impressão de que o exercício está a atrasar a recuperação e temo pelos meses de calor.

Já comecei a procurar chapéus de abas bem grandes, que me tapem a cara e não me façam parecer estranha.  

Raios

 Devia haver um plafond. Um plafond para a quantidade de barbaridades que cada pessoa podia dizer. 

Depois de esgotado o dito plafond, caía um raio em cima da pessoa. Um raiozito, só, à primeira, que ia aumentando de intensidade à medida que a pessoa fosse insistindo em dizer mais barbaridades. 

Era. 

domingo, 12 de abril de 2026

vida

Olho para trás e lembro-me de poucas coisas. Tenho memórias vívidas e, depois, memórias difusas e confusas, perco o fio à meada, não tenho a certeza do tempo que passou, das pessoas que estavam ou não, do sítio...

E, muitas vezes, sinto que não fui eu que vivi aquilo, foi outra gabriela, nem sei mesmo se se chamava assim.

Lembro-me de ficar chateada quando a minha mãe, perante memórias que lhes desfiávamos, só saber dizer "não me lembro, não me lembro" e hoje digo exatamente o mesmo " não me lembro, não me lembro..."



quinta-feira, 9 de abril de 2026

ela foi a Londres, eu fui à dermatologista

 É claro que adorou Londres, principalmente o museu de história natural. Gastou uma pipa de massa no hard rock, andou kms e kms, socializou com as colegas mais próximas da turma (o que, para nós que a conhecemos, pode parecer estranho e é muito bom!) e chegou a casa de rastos, a tempo de preparar a mochila e ir para a cama, porque no dia seguinte era dia de escola. Toma lá.

Eu não adorei ir a ida à dermatologista, mas a minha cara precisava. Há meses com ela toda vermelha, "acelerada", "picante", já a usar cremes para rosácea que nada faziam, começam a aparecer "borbulhas", assim entre aspas, porque não eram bem borbulhas.

Eu não podia ter só rosácea. Rosácea ponto. Tinha de ter uma rosácea especial: do tipo papulopustulosa (ou será papulo-pustulosa?).  Tão giro, de dizer... 

Vim para casa com toda uma rotina de skincare e antibiótico. Antibiótico à noite, após o qual não me posso sentar durante meia hora, que aproveito para empastar a cara. Começa com limpeza com um "leite" adaptado à minha condição, segue-se um sérum de niacimida e zinco (da Ordinary), uma pomada para combater a infeção (Soolantra), eritromicina para ajudar a supurar as pâpulas e acabo com um creme hidrante. 

Na primeira noite, após o ritual, quase fiquei colada na almofada, tal era o nível de empastelamento. Agora, ao sétimo dia, já controlo melhor as quantidades e consigo ir para a cama menos palhaça.

É todo um mundo novo. 


49, pá!

Este ano calhou-me nas sortes fazer anos num sábado. Havia a possibilidade de ir lá acima, mas a mr. ia estar a trabalhar, os meus pais estã...