
Há? não me venham com piadas ligadas a cogumelos mágicos ou a canabinóides.
Quero saber se há, a sério, na verdade, pilulas que tornem as pessoas mais otimistas. Eu preciso de tomar disso.
Sabem o que é que os quarenta me trouxeram? mais uma carrada de pessimismo. Eu odeio a pessoa pessimista que vive aqui dentro e da qual não me consigo ver livre, sinto-me a ser comida viva por essa parte de mim e odeio.
Pilulas que matem essa criatura que me come, há?
Gostava muito de consegui perder-me em balanços (dizem que uma pessoa se encontra neles), mas a verdade é que balanços deixam-me enjoada.
Os balanços fazem-me confrontar com uma miúda que já não é miúda mas uma mulher a caminhar para a meia idade a passos largos, que ainda não fez nada digno de nota, que vai morrer e ninguém se vai lembrar dela.
Na verdade, é necessária uma grande dose de coragem para aceitar o facto de que, na sua maioria, os seres humanos nascem, procriam ou não e morrem, deixando apenas uma grande pegada ecológica. Eu sou, serei, um desses, dos que pertencem à maioria.
Aceitá-lo sem grandes ondas será, porventura um grande feito (ou um ato de cobardia, já não sei). Na realidade, não sei nada. Os quarenta não me trouxeram nada daquilo de que se fala: tranquilidade, aceitação das pequenas razias, sabedoria, nada... só a constante insatisfação.
És o meu marido, eu disse, mesmo antes de adormecer, a minha mão a chegar perto da dele, num toque só, de dedos.
É, às vezes ainda me causa espanto.
Vieste de mansinho e dançaste comigo o last christmas
fizeste-me entrar no natal
pela porta grande
obrigada
dançámos juntas enquanto eu me vestia para ir para a ginástica
fazemos isso muitas vezes e eu gosto tanto
que a nossa vida seja sempre uma dança
Já ouvimos histórias do natal de antigamente, quando a coca cola ainda não tinha inventado o pai natal barrigudo, já falámos com o menino jesus, para lhe contar as novidades desta vida, ouvimos música de natal enquanto jantávamos, partilhámos o que nos fez felizes naquele dia (a mim foi a temperatura exterior de vinte e poucos graus), já fizemos um vídeo a desejar feliz natal aos nossos amigos, que vai ser enviado no dia 24 (quem quer receber?) e, pasme-se, temos uma tenda montada no quarto delas. Ocupa o quarto todo e inicialmente era para ser o refúgio da mr., para ela adormecer sentindo-se protegida, mas tem sido o da gr. que dorme lá todas as noites (a mr na cama dela). É difícil fazer a cama, arrumar roupa e arrumar o resto, mas confesso que até a mim me apetece lá dormir.
Acho que temos tenda montada (em sentido literal) até janeiro.
Ainda não ouvi o last christmas....
Como se não fossem suficientes as ferramentas que eles têm ao seu dispor para se magoarem, triturarem, torturarem e manipularem uns aos outros, ainda lhes damos telemóveis onde criam grupos de whatsapp, onde se incluem uns aos outros e excluem de forma aleatória ou com base nos seus preconceitos e ignorâncias típicas da idade, criando traumas pessoais e sociais cuja fatura nós, pais, vamos ter de pagar, mais tarde ou mais cedo.
Em psicólogos ou em mais culpa para carregar.
Tirem-lhes os telemóveis, pôrra!
O tio Pedro já anda há algum tempo a dar-lhes dicas no xadrês e neste fim de semana que passou o Rui esteve a jogar com elas.
O jogo com a gr. foi interrompido pela necessidade de ir dormir e continuou no dia seguinte, depois de ela já ter lanchado (um lanche bem farto). Pelos vistos, o lanche em casa não foi suficiente, porque depois de ganhar o jogo sentaram-na à mesa e ofereceram-lhe novo lanche que ela prontamente aceitou.
Quando chegou a casa comunicou que tinha participado de um lanche de idosos (os pais e a tia da rita).
Ontem, vinha a ouvir uma entrevista à Nelida Piñon e ela disse uma cena extraordinária, ou melhor, recordou uma coisa extraordinária que a mãe lhe tinha dito aos sete anos de idade: que ela, a miúda Nélida, era um ser muito inteligente, mas que não sabia falar. A miúda Nélida ficou a pensar naquilo, sem compreender exatamente o que a mãe queria dizer.
Então, a mãe explicou-lhe que o ato de falar era um milagre e que ela, a miúda, deveria lembrar-se disso de todas as vezes que quisesse fazer uso da capacidade de falar. Que falar sem ter a certeza de que se é compreendido é não saber fazer uso do milagre de usar a palavra.
E eu fiquei a pensar nisso. Porque não sei se alguma vez terei dito ou sequer se terei a sabedoria de dizer algo tão simples e tão verdadeiro a qualquer uma das minhas filhas.
O natal, vivido assim, a correr entre centros comerciais, entre atividades que se fazem para cumprir um calendário, é "um carnaval", nas palavras do paterfamilias.
E o paterfamilias, nesta como em muitas outras coisas, está certo.
Provavelmente, é por isso que a cada ano que passa o vou apreciando menos e menos, ao carnaval, bem entendido, não ao meu paterfamilias.
Hoje, o avô Zef, também conhecido como paterfamílias, vai contar como era a época que vivemos quando ele era criança, há 500 anos, portanto.
Sonhei que fugíamos, não sei quem éramos. Mas fugíamos de um golpe, de algo que tinha mudado radicalmente a nossa forma de viver. Chegámos ...