segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A Soraia

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A Soraia vestiu as calças justas, o soutien push-up e a camisola decotada. Untou-se com "shimmering lotion" a cheirar a rosas, empoleirou-se nos tacões, pôs uma quantidade industrial de rímel e de sombras rosa, pintou as unhas a fazer "pandan".


 


Foi buscar o cd mais recente, o de capa em papelão, duplo e saiu de casa. Nem levou carteira, mas voltou atrás para pôr mais uma pulseira e um colar de pérolas cinzentas.


 


Chegou ao festival e enterrou-se na lama, mas nem deu por isso! Depois de uma volta discreta para sondar o ambiente, começou a entrar em desespero: a música era alta de mais, as pessoas esquisitas e não havia nem uma única senhora que ela já conhecesse de outros concertos. Não havia mulheres produzidas nem senhoras de meia idade com as camisolas da bershka roubadas às filhas.


 


No entanto, manteve firme a decisão de encontrar o cantor, o homem da sua vida e provar-lhe que ela, a Soraia, ia ser a sua próxima e eterna esposa, após o divórcio da Fernanda.


 


Junto às tendas, não estava, que ela bem gritou. A custo, enterrando-se na lama e escorregando nos paralelos, desceu novamente ao recinto. Com o cd na mão, interpelava os grupos e grupinhos e perguntava-lhes: "viram o Tony? sabem a que horas ele toca?" E perante os olhares espantados, foi repetindo, as vezes que eram necessárias, que estava à espera do concerto do Tony, que queria encontrá-lo e mostrar-lhe que ela tinha nascido para ele.


"Eu nasci para o Tony", repetia ela. Nos segundos em que as bandas paravam de tocar, entre uma música e outra, ela gritava "Tooooniiiiiiiiii!" ou então "Tony, estou aqui, eu nasci para ti!"


 


Mas o Tony não apareceu, embora um senhor que aparece na televisão, um tal de Álvaro Costa, lhe tenha garantido que ele ainda ia aparecer.


Tirou selfies com grupos diferentes, com outras pessoas estranhas que por lá andavam (uns negociantes de gado com ar de campónios, uma família Ronaldo de segunda categoria, com uma tal de Bebiana que queria ser cantora e tinha um top giro, giro, uma velhinha vendedora de bolos e um gajo com ar de mânfio).


 


Por volta das onze, a Soraia, cheia de dores nos pés e farta de se enterrar na lama, farta de gritar pelo Tony, que não veio, largou os tacões, os colares e a pulseira. Serviu-se de cerveja no backstage, junto dos artistas que lá estavam e foi ouvir Sensible soccers, muito melhor que o Tony!


 


 


 

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