Há alturas da vida em que as potenciais ameaças ao nosso bem estar, ainda que pequenas, são tantas que nessas alturas sinto-me a andar pela vida como se as minhas entranhas estivessem enroladas. Imagino-me andando curvada pelo que me apoquenta, sinto-me a andar curvada pelo que me apoquenta.
Nestas alturas, se eu pudesse, engarrafava o cheiro das minhas filhas quando saem do banho, o cheiro das minhas filhas quando dormem, o cheiro das minhas filhas quando me abraçam pela cintura, o cheiro do M. quando me nele enrola.
Engarrafava esses cheiros e embebedava-me deles, enrolava-os numa mortalha e fumava-os, como se fuma um charro. E depois, deixava-me ficar ali e tudo havia de passar. Quando me levantasse, seria já capaz de caminhar direita, sentir-me-ia já a caminhar direita.
Era isso.
Às vezes o sofrimento maior está na antecipação e não no problema, mesmo que aconteça (e pode nem acontecer),por isso, podes não conseguir engarrafar os cheiros mas podes snifá-los profundamente e guardar na memória , para te acalmares durante o dia. É que às vezes a realidade não é tão má quanto conseguimos imagina- é dos pensamentos (apenas alguns) que devemos ter medo.
ResponderEliminarSe calhar, também precisava de uns drunfos antes de ir para a cama, que isto de dormir mal dá cabo de qualquer um.
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