levanta o rabinho, faz favor.
não saias daqui.
despacha-te, corre!
onde vais, tão depressa?
mas onde é que queres ir? (enquanto tenta manobrar a cadeira, no meio do corredor)
levanta o rabinho, faz favor.
não saias daqui.
despacha-te, corre!
onde vais, tão depressa?
mas onde é que queres ir? (enquanto tenta manobrar a cadeira, no meio do corredor)
Só para registo: ele
dia 18 de agosto, acidente de mota, a baixa velocidade, numa estrada secundária, clavícula partida, omoplata rachada, perónio partido
saem colocações: não fica
cirurgia, dores, começar o ano letivo de baixa, que se prolongará pelo 1º semestre, de acordo com previsões médicas
eu
enfermeira sem carta ou formação, navego nos mares do auxílio ao esposo
saem colocações: fico no concelho ao lado (onde no ano que terminou acumulei 5h)
levo e trago esposo do hospital, assisto impotente às dores pós cirurgia, às deslocações pela casa na cadeira de escritório (deveria ser uma cadeira de rodas) ( a de escritório tem rodas)
Aguarda-se com algum receio o que ainda aí virá relacionado com os cabrões dos seguros.
Sê mais meigo com a gabriela, que sente "ameaçada" (não me lembro se foi este o adjetivo usado, mas era algo do género) pelo clã moreira, que é tão tolerante....
sim, porque o clã tem tanto a tolerar na tua esposa, tanto, meu irmão... toleramos tanto a tua mulher, tantos comportamentos dela... aguentamo-la por amor a ti, meu irmão...
Primeiro li o livro. "Isto vai acontecer.... se não a mim, vai acontecer às minha filhas! Vai... " foi o pensamento que me acompanhou o tempo todo.
Umas semanas depois, tive curiosidade em saber como é que o texto tinha sido adaptado para série e vi o primeiro episódio. Que murro! Não quis ver mais. É sufocante, aflitivo.
Uns dias mais tarde, decidi trazer o Marco para dentro do universo e vimos o primeiro episódio juntos.
Ele quis continuar a ver e eu vi mais uns quantos. Noites mal dormidas, cheias de pesadelos, de horas insones...
Decidi parar. Ele queria ver mais, mas acabou por decidir parar também: No entanto, a curiosidade falou mais alto e voltámos. Vimos episódios de tarde, para tornar as noites mais fáceis, mas, às vezes, não aguentamos e lá vamos ver mais um após o jantar. Levamos quase sempre uns quantos murros no estômago.
Que pôrra de masoquistas somos.
Demorei um bocado a processar a informação... quando a processei, acabada de sair de três horas como suplente de uma vigilância de exames, a conduzir para casa, senti o coração a disparar.
Vinculei. Pensei. Significa que daqui a dois anos podem mandar-me para onde quiserem.
Eu sou isto, penso logo no pior. Mas o tempo também me deu a capacidade de procurar relativizar.
Para o ano tenho trabalho, para o ano tenho um horário completo (só não sei onde).
O resto, vê-se quando lá chegarmos.
Agora, é sacudir a sensação de que fizemos um pacto com o demo....
mas fazem de mim chata
se tenho de repetir várias vezes a mesma coisa...
se tenho de pedir o mesmo pedido três e quatro vezes...
se se acumulam tarefas porque não foram feitas quando pedi pela primeira vez...
"mas queres que arrume a mesa ou que vá pôr a roupa a lava? tu decide-te!"
"se a roupa tivesse ido para a máquina quando eu pedi.... "
à tarde, pouco antes de o teu caixão descer à terra, dois senhores estavam sentados nas cadeiras junto à porta. Tinham um ar solene, ali sentados, olhando em frente, na tua direção.
Perguntei quem eram e disseram-me que eram os dois senhores do café onde ias pela manhã tomar a tua bica.
Quando sairam, a mão de um deles levantou-se, num aceno breve, num adeus discreto, e eu achei aquilo bonito.
A minha tia do coração deixou-nos no dia 11 deste mês.
mais um ano letivo
sobrevivemos
como vamos estar em setembro?
não sabemos
Há uma nuvem que me acompanha, ainda que as manhãs tenham acordado com sol
não lido nada bem com as incógnitas de fim de ano letivo (nem com outras)
Eu era a mais velha do público
os outros, todos mais novos, levantavam o telemóvel nas canções mais recentes enquanto eu apenas gingava o corpo
filmavam por cima das cabeças os bocados do concerto e abanavam os telemóveis
hoje toda a gente sabe "o que fizeste no verão passado"
no ano inteiro, toda a gente sabe o que fizeste e onde estiveste e com quem
eu era a mais velha no meio dos miúdos e, por desconhecer as mais recentes, mais velha me senti, ainda que as mais velhas tenham apenas dois anos
Não me sinto a envelhecer bem e não me sinto bem a envelhecer
e isso deixa-me lixada
quantos faço? acrescento, invariavelmente, um ano a mais àqueles que faço
na minha cabeça faço 47
se ele não está, tenho de fazer contas, coisa que me incomoda, porque já não tenho dedos suficientes para fazer a subtração dos números 2023 e 1977
não gosto do que vejo no espelho: as rugas cujo nome está ligado a galinha (qual é mesmo o nome das rugas à volta dos olhos?), a pele vítima da pôrra da gravidade mais da falta de flexibilidade e mais a pôrra da flacidez, os cabelos cada vez mais brancos...
não gosto disto de não aprender com os erros, de não ser capaz de ir acalmando este meu viver apressado que me dá taquicardias....
Este ano, acho que nunca lá chegarei.
Talvez para o próximo seja diferente.
1/4 hoje 1/4 depois e depois assim entra o antidepressivo no meu sangue o comprimido é tão pequeno que o ato de o reduzir a quartos é no mí...